A profissão de jornalistas é muito difícil.
Mas é nas ruas que aprendemos muito sobre a vida.
Me lembro bem quando decidi ser jornalista. Tomei essa decisão três vezes. A primeira ainda no "ginásio", agora chamado de ensino médio. Escolhi entre jornalismo e publicidade. Fiquei com o jornalismo. Depois foi antes da minha inscrição no vestibular. Estava em dúvida entre artes e jornalismo. Acreditem, o que me ajudou muito foi o fato de o centro de artes da Ufes ser uma bagunça (ironia do destino, no meio do curso nosso departamento 'se mudou para lá', rs). Fiquei mesmo com o Jornalismo.
A terceira e última vez foi durante o próprio curso. mais uma vez tive que escolher entre publicidade e minha futura profissão. Foi difícil. Por vezes estive com o pé numa agência, mas no 2º tempo fiquei com o Jornalismo. Graças a Deus.
Ah, se eu levar em conta que antes de ser chamada (fiquei na suplência) fiz 6 meses de cursinho e estava decida a prestar novo vestibular para direito, seriam 4 vezes. Ufá! Me chamaram.
Como ia dizendo, nossa profissão pode ser muito questionada, pela tal 'imparcialidade' não nunca existiu, não existe e jamais vai existir, admirada por tantos e odiada por muuuuitos outros.
Mas poucas profissões dão a oportunidade de viver momentos adversos, profundos, de grande desafio e que questionam a tão defendida 'sabedoria' desse ser chamado de jornalista.
É por isso que concordo com a máxima que diz que nós somos "especialistas em generalidades". Sabemos um pouquinho de cada coisa porque vivemos várias situações, muitos desafios.
Digo isso porque minha vida em um jornal é curta. Pouco mais de dois anos. E minha vida de repórter menor ainda. Pouco mais de cinco meses.
Como sabem, nestes últimos dias estou substituindo uma repórter. E posso dizer, essa semana foi pesada. Em vários sentidos. Cansativa e exaustiva no que diz respeito às emoções. Ao aprendizado sobre a vida.
Na terça fiz uma matéria sobre a revitalização do Centro de Vitória, e o Projeto Morar no Centro, que beneficiou 94 famílias com apartamentos (muitos com menos de 40 m²). Vão pagar 10% do salário todo mês assim que recebem o imóvel durante 15 anos. Va lá, melhor que pagar aluguel. E na quarta mostrei um desabamento de um trecho da BR 101, em Jacupemba, distrito de Aracruz, município do Espírito Santo.
Naquele dia não tive muita noção do estrago. Mas ontem voltei lá. As obras de recuperação e criação de um desvio já iniciaram. Mas não fui falar apenas disso. Fui também conversar com as famílias que moravam nas margens da BR e que tiveram as casas destruídas pela chuva. Irônico, não?
Elas moravam em um local de risco, e que era uma invasão. Conversei com o Prefeito em Exercício do município, Jones alguma coisa, não me lembro o sobre nome agora. Ele disse que vai 'arrumar' um outro local para as famílias.
Bom, se era um local 'de risco' e 'impróprio', por que não tiraram aquelas famílias de lá antes? Infelizmente, estava com tanta pressa que não perguntei isso a ele no momento.
Mas o pior não foi isso. O pior foi ver centenas de pessoas desabrigadas. Que 'não tinham nada' e que 'perderam tudo'. E eu ainda reclamo da vida de vez em quando.
Outra coisa que me chamou a atenção foi ver pessoas pouco instruídas e que sabem que tem direito a alguma coisa.
Antes de sair da cidade um senhor veio falar comigo. Disse que perdeu tudo. Só conseguiu salvar a família. Me disse que não havia mais sentido em sua vida. Tentei encorajá-lo. Disse-lhe que ele tem uma esposa e um filho para cuidar. "É só por eles que vivo", me respondeu. Naquele momento minha garganta se fechou. Mas tentei dizer que ele tem que ter fé, mesmo sendo questionada "por quê Deus fez isso? Eu não ligo pra luxo não. Vivo minha vidinha. Ganho 400 reais pra sustentar minha família. Quero mais que isso não".
É duro, muito duro. Lembrei-me que certa vez alguém me disse que certas pessoas nascem para sofrer, outras não. Espero realmente que essas pessoas tenham lugar garantido ao lado de Deus, para ter pelo menos uma 'vida eterna' digna.
Esse senhor, acho que nem perguntei o nome dele, se despediu agradecendo por eu tê-lo ouvido - acho que o que ele queria mesmo era desabafar com alguém. Dizendo que foi um prazer em me conhecer. Pediu pra que eu falasse a verdade. Que a culpa são dos donos de barragens irregulares - a enxurrada foi causada porque algumas delas transbordaram. Falei disso na minha matéria, mas mesmo assim não me senti bem. Devia ter dito que é um absurdo pessoas perderem tudo o que nunca tiveram por culta de uns e de outros, e que o governo só olham por essas pessoas depois que uma tragédia acontece.
Talvez eu ainda não tenha encontrado a verdadeira essência do jornalismo, talvez ainda não saiba qual minha real missão.
Mas de uma coisa eu sei. Esse mundo está muito errado. Há muitos hipócritas, ladrões (os de paletó e gravata), egoístas. E o que é pior. Sei que eu também sou hipócrita e egoísta.
Se essa minha profissão não serve para mudar o mundo, que pelo menos sirva para mudar a mim mesma.