sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Êxodos - do preto ao branco: a construção de uma imagem

“a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, da significância de um acontecimento, bem como de uma organização precisa de formas que dão a esse acontecimento sua expressão adequada.”
Henri Cartier-Bresson, O momento decisivo.

Há muito tempo ouço falar do fotógrafo Sebastião Salgado. Mas esse “ouvir falar” era muito vago e conflitante, pois ora me falavam bem de seu trabalho, ora me falavam mal. A primeira vez que vi suas fotos foi em uma aula de realidade brasileira, apresentadas por alguns colegas. A partir daí, comecei a formar uma opinião a respeito de seu trabalho. O segundo momento em que tive contato com o trabalho do fotógrafo foi na mostra fotográfica Êxodos*, de autoria de Sebastião Salgado e design de Lélia Wanick Salgado, há algumas semanas.
É claro que naquela época meu olhar não era “tão fotográfico” e nem crítico como hoje, pois eu ainda não pensava a imagem fotográfica como o faço agora. Neste pequeno texto irei falar um pouco desse meu olhar crítico – ainda um pouco imaturo, é verdade – sobre a única exposição de Salgado que tive o prazer de prestigiar.
Em todo o meu curto período acadêmico, na verdade dois anos, discutiu-se muito a verdade (ou sua construção), a identidade (mais precisamente a formação de identidades), as linguagens jornalística e publicitária, e o fazer jornalístico (objetividade, lead, autoridade, etc). Mas estudar profundamente a importância e a construção das imagens comecei há apenas seis meses.
Linguagem fotográfica, obturador, diafragma, objetivas, luz, composição, instante fotográfico. Teoria, técnica e prática. Coisas que nunca havia imaginado existir antes. E mais, nunca havia parado para refletir. Tudo era novidade. Muita coisa para aprender, coisas a compreender e outras tantas coisas para esquecer. Está aqui, aliás, a minha grande dificuldade: o que eu deveria esquecer. De tudo o que eu precisei absorver nesses últimos meses, o que foi mais complicado – mais não impossível – foi a desconstrução do meu olhar.
Você deve estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com a mostra fotográfica Êxodos? Mas é aí que está a questão.
Todas as pessoas que fossem ver uma exposição, não só de fotografia, mas de arte também, deveriam compreender algumas coisas relacionadas à construção e formação de uma imagem. Tudo o que é pensado antes de se fazer uma imagem, artística ou não. Mas principalmente: toda a ideologia e a subjetividade que estão por trás de uma imagem.
As pessoas precisariam desconstruir seu olhar antes de contemplar uma imagem. Falo isso porque o que percebo em uma exposição de fotos de um fotógrafo como Sebastião Salgado são alguns equívocos de interpretação. É claro que cada um possui a sua subjetividade, e interpreta o mundo, e tudo o que há nele, à sua maneira. Só que as fotos de Salgado vão muito mais além do que a beleza estética. Elas transmitem toda uma identidade construída por muitos anos de trabalho, pesquisa, vivência e sacrifício.
E era a este ponto que eu gostaria de chegar. Pois como falar sobre o trabalho de um fotógrafo consagrado, conhecido não só no Brasil, mas em todo o mundo, sem mencionar sua percepção, por exemplo?
Admito que não deixei de lado todos os pré-conceitos a respeito de Salgado antes de visitar a exposição – o que foi um erro, a meu modo de ver. E isso condicionou um pouco o meu olhar. Mas, apesar de todo esse condicionamento, a beleza e a percepção fotográfica desse profissional me impressionaram bastante.
Volto então ao começo do presente texto. O que de “mal” me falavam sobre o trabalho de Salgado? “Ele usa a fotografia em preto e branco para dramatizar a foto... Ele usa a pobreza para se promover e comover as pessoas... Ele ficou conhecido porque estava no lugar certo na hora certa.... Suas fotos são boas porque ele possui equipamento de qualidade e tem patrocínio...”.
Não estou aqui para defender ninguém, muito menos para criticar. Mas não podemos negar que as fotos dispostas no mezanino da praça de alimentação do Shopping Vitória são boas. Achei que algumas estavam um pouco deslocadas do tema, é verdade, mas em se tratando de analisar a fotografia, elas são, no geral, muito boas. Só que eu não quero, e nem pretendo, me prender somente às técnicas utilizadas por ele, mas ao instante fotográfico. Este sim merece uma grande atenção.
E claro que a escolha de uma grande-angular ao invés de uma teleobjetiva faz muita diferença. O uso de um determinado obturador ou diafragma também são decisivos para a transmissão de uma determinada mensagem. Mas neste caso, quero ressaltar como a percepção de Salgado tem grande influência sobre suas fotos. Seria o chamado “momento decisivo” de Henri Cartier-Bresson.
Será que outro fotografo conseguiria registrar um momento da forma como o faz Sebastião Salgado?
Com certeza existiram e existirão profissionais muito melhores que ele, mas poucos conseguem capitar os instantes fotográficos de forma tão precisa. E é isso que eu insisto em ressaltar: a capacidade que Sebastião Salgado tem, como poucos fotógrafos, de capturar uma imagem – um instante do real – de forma tão feliz e de usar todos os elementos de forma a compor fotografias capazes de transmitir sua mensagem. Será que tenho algum ponto negativo para ressaltar? Talvez teria, pois Salgado, assim como todo profissional, não é perfeito. Mas no momento não possuo bagagem suficiente, admito, para apontar isso ou aquilo que me pareça “ruim”.
É por tudo isso que falei anteriormente que devemos nos despir de alguns pré-conceitos antes de visitarmos alguma mostra, artística ou não. É verdade que não é possível deixarmos de lado nossa subjetividade – nossa identidade -, mesmo porque, é com ela que compreendemos o mundo em que vivemos. Entretanto, se conseguirmos olhar para as imagens com outros olhos, conseguiremos viajar e compreender tudo aquilo que vai além da imagem, muito mais do que ela nos traz, ou do que pretende transmitir.

* A exposição segue até o 30 de outubro, no mezanino da praça de alimentação do Shopping Vitória. As visitas podem ser feitas de segunda à sexta, das 12 às 22 horas, aos sábados de 10 às 22 horas e aos domingos das 15 às 21 horas.

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Pessoas queridas, posso até ser moderninha (rs), mas será que alguém lembrou que meu post anterior era a segunda parte de um outro???

Um comentário:

Carla disse...

Nussa, que viagem... espero que vc não se importe que eu não tenha lido o post inteiro... estava técnico demais pra mim, huahuahauahuahaua. Só passando pra deixar um abraço.. depois de tanto tempo... bjs!

Carla de Matos Martins