terça-feira, 24 de janeiro de 2006

E tu, o que perguntas?

Quando eu era criança nem imaginava que existisse alguém chamado Sócrates, mas já sabia fazer o que ele fez de melhor: perguntar. Digo isso porque sempre que me deparava com algum mendigo na rua exercitava minhas reflexões ao questionar: “O que faz essa pessoa na rua? Por que está tão suja? Ela dorme aqui?”.
De certo eu, apenas com meus prematuros pensamentos, não era capaz de responder com precisão, mas logo encontrei alguém que me respondeu: “São pessoas que por algum motivo perderam seus empregos e, por isso, tiveram que morar na rua”. Outro falou: “São pessoas sem família”, ou ainda: “São crianças sem pais e que foram abandonadas quando nasceram”.
Todas essas respostas me assustavam, mas não eram capazes de responder ao meu questionamento. Eu queria mais, pois as que me davam eram insuficientes. Por isso, continuei procurando quem me desse, não necessariamente a resposta correta, mas aquela que, a meu ver, chegasse mais próximo da verdade.
Disseram-me que os mendigos eram vagabundos, pois só sabiam pedir e nem se davam ao trabalho de arrumar um emprego. Ouvi dizer que os desabrigados eram esquecidos aqui, mas que Deus lhes reservara um lugar no paraíso, pois sua casa é a casa dos excluídos. E mais, encontrei até quem dissesse que eram trombadinhas, cheiradores de cola, marginais.
Foi quando um dia um professor falou que a culpa era do sistema. Sistema? Ah, ele explicou: “O capitalismo é um sistema econômico individualista e consumista. Vive bem quem tem dinheiro e pode comprar. Quem não consegue um emprego vive a mingua porque o Estado não mantém políticas públicas voltadas para o público, e sim para o privado”. Na época não consegui entender com clareza o que aquele homem dizia, mas concluí que essa era a resposta mais coerente que eu havia ouvido até aquele momento.
Cresci um pouco mais, outras pessoas me deram novas versões, e como sempre gostei de ler, fui conhecendo novas idéias, outros conceitos, muitos pensadores. Várias foram as vezes em que essa pergunta voltou à minha mente, assim como muitas foram as que ela se fez ausente.
Hoje, mais uma vez me deparo com a cena: uma criança se encolhe na calçada, certamente com fome e com frio. Tem sim um vidro de cola nas mãos, mas que alternativa ela tem? Quem lhe ofereceu outra escolha? E, por isso, repito: Por que esta criança está aqui?
Estaria mentindo se dissesse que não acredito que seja culpa do capitalismo, mas mesmo em países “socialistas” a miséria existe e as pessoas ainda passam fome. Por isso estaria mentindo se afirmasse que a culpa é só do sistema. A culpa também é da história. Só que insisto em perguntar: quem constrói a história? Não é o homem? Está certo, foi o homem quem in ventou a política e o direito, mas foi ele mesmo quem os distorceu e criou as armas e o capitalismo.Depois disso, relembrando Sócrates, pergunto mais uma vez: de quem é a culpa por existirem pessoas que são obrigadas a dividirem seus leitos com o relento? Muitas explicações existem. Eu também tenho a minha opinião. Mas ela é somente mais uma.
Sei que minha aquarela anda meio esquecida, mas nas féias não estou com muito saco para algumas coisas... nem um post sobre 2005 consegui escrever.... afff... mas prometo que ele será feito. Essa crônica escrevi há algum tempo. Por isso postei, pois se tivesse que escrever isso hoje, agora, certamente não o teria feito. É isso. Até o final de minhas férias... ou da minha preguiça. F*U*I!!

Um comentário:

Renata disse...

acontece que o homem tb conseguiu criar lindas teorias pra resolver o caos. aplicá-las é que tem se tornado muito complicado. bjokas